Emoção: Um caminho para a “Plasticidade Vocal”

Tempo de leitura: 5 minutos

 

Plasticidade vocal

Muito já ouvimos falar a respeito do nosso processo de aprendizado.

Desde muito cedo precisamos de modelos para descobrir o novo. E é a partir da observação e imitação que desenvolvemos nossas habilidades ou comportamentos.

Como a grande maioria dos cantores, quando comecei a cantar profissionalmente nos anos 80, fazia um repertório basicamente cover.

Tínhamos uma banda baile formada pelos seis irmãos que atuava em todo sul de Minas Gerais.

Naquela época era comum as cidades do interior fazerem bailes no fim de semana por algum evento, formatura ou com a função de “balada” para os jovens locais.

Eu cantava de forrós da Elba Ramalho a “pop dançantes” da Madonna. Não tinha conhecimento algum de técnica vocal, mas lembro-me bem de fazer um bom uso da plasticidade vocal que fui adquirindo ao tentar imitar intuitivamente as cantoras da época.

Quem já foi ou é cantor de bailes, talvez já tenha vivido como eu o preconceito por fazer covers e imitar outros cantores.

Como eu mesma já ouvi, no entendimento de muitos, fazer isso pode “tirar sua identidade vocal” ou mesmo “estragar a voz”.

Penso hoje que qualquer cantor sem consciência e domínio técnico pode criar vícios de emissão, mas é indiscutível a “bagagem” que um cantor pode adquirir tendo que ser versátil em suas interpretações para reproduzir timbres de outros cantores.

Quando comecei meus estudos de fisiologia da voz, depois de quase vinte anos usando a voz profissionalmente sem nenhum domínio técnico, compreendi o que de fato eu fazia para conseguir aproximar minha voz daquelas cantoras nos anos 80 e tudo o que eu já fazia ficou bem mais fácil de ser executado.

Abaixo dois grandes exemplos de plasticidade vocal, deleitem-se!

 

Sob o Comando da Emoção

Vale sempre lembrar que a nossa voz é incrivelmente plástica, permitindo diversos ajustes que podem alterar de forma significativa o nosso timbre.

Muitos desses ajustes já são utilizados por nós na fala, movidos pelas nossas emoções.

Assim se estou triste minha voz ficará mais contida, mais grave, sem muito brilho, a articulação certamente será menor, o ritmo da fala será mais lento e estas características na voz denunciarão meu estado emocional.

Por outro lado se estou alegre, minha articulação tenderá a ser maior, o sorriso meu timbre mais brilhante, ele soará mais aguda e o ritmo da fala se tornará mais rápido.

Tudo isso acontece naturalmente, sem que eu precise pensar, graças à versatilidade e plasticidade do trato vocal.

Texto e Canção

Acredito que o estudo do texto de uma canção antes mesmo do aprendizado melódico pode ser um diferencial na sua interpretação, fazendo com que tudo aconteça de forma mais fisiológica.

Assim a partir da compreensão que tenho sobre o conteúdo da letra descubro quais emoções ela me remete e procuro expressá-las no meu canto.

Em busca de uma identidade vocal e interpretativa conseguir dizer o texto de uma canção a nossa maneira, transmitindo a mensagem que música propõe, pode ajudar a nos identificar como cantores.

Por mais que pareça simplista demais pensar assim, creio que possa ser um caminho a seguir.

Muitas vezes resolvemos ajustes de fonte e filtro apenas dando ao texto de uma canção alguma intenção. E quanto mais o valorizar, mais verdadeiro ele soará e mais facilmente a mensagem será entendida pelo meu expectador.

No canto popular considero que temos dois grandes atributos a nosso favor:

*Podemos fazer sem medo o uso dessa plasticidade do trato vocal, buscando os ajustes que julgarmos necessários para nos expressarmos no canto.

*Para ser um grande intérprete não é necessário ser um virtuose vocal, mas ter a capacidade de se expressar com verdade.

Assim, desde que qualquer adaptação vocal seja realizada com consciência, a voz pode soar mais nasal ou com mais metal (o que dará a ela uma qualidade mais clara, com mais brilho), pode soar mais “escura” sem projeção (o que fará o timbre parecer mais grave, “pesado”).

A voz pode soar com ruídos (efeitos vocais como os drives) ou até mesmo ser reproduzida com certa soprosidade que denotará maior sensualidade ou coloquialidade à voz.

Música e Musicoterapia

Desde muito cedo temos uma tendência a nos identificarmos com as letras de algumas canções.

Boa parte do repertório musical que damos preferência em ouvir em algumas fases da vida, dizem muito respeito ao nosso estado emocional.

Vem daí a base do trabalho da musicoterapia que utiliza a música como objeto intermediador entre cliente e terapeuta, facilitando e promovendo, a expressão e a comunicação, entre outros, no processo terapêutico.

Penso que cantar as notas precisamente é o mínimo que o cantor deve primar-se, mas, além disso conseguir “dizer” o texto da canção deve ser sempre uma busca! E quanto mais se conseguir apoderá-lo de alguma emoção ou sentimento, mais verdadeiro ele soará.

Ousem, criem, e num primeiro momento até mesmo imitem seus ídolos sem medo, buscando referências vocais. Identifiquem o que gostam mais ou menos em suas vozes.

E acima de tudo se desenvolvam tecnicamente para ter todo esse maravilhoso, versátil e único instrumento a seu dispor!

 

 

 

Comentários

Comentários