Muda Vocal: adolescência sem culpa

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O processo de muda vocal é um assunto bastante discutido, com bibliografia extensa, por se tratar de algo extremamente natural ao desenvolvimento e amadurecimento do corpo.

Ocorre durante a puberdade e pode ser observado em ambos os sexos, porém de forma mais acentuada nos meninos, que podem agravar a voz em até uma oitava, enquanto nas meninas em torno de 3 a 4 semitons.

Conforme Behlau e Pontes (1993), na muda vocal o aparelho fonador sofre um amadurecimento constante, mas não homogêneo da laringe, das cavidades de ressonância, da traqueia e dos pulmões. Essas alterações de crescimento no pescoço e laringe geram no pubescente um período de desequilíbrio.

Durante a muda a voz pode ficar levemente disfônica (rouca) e instável, com várias flutuações tendendo aos sons graves, sobretudo nos meninos. As quebras de altura na voz são um fenômeno comum que podem acontecer num período de três ou seis meses, mas depois desaparecem completamente.

Nas meninas as disfonias durante a muda são mais raras, mas também é possível notar uma leve instabilidade na voz especialmente na região médio-aguda.

Quais são as causas e conseqüências da Muda Vocal?

Os distúrbios vocais encontrados no processo de muda vocal podem ser funcionais e orgânicos.

No que diz respeito às causas funcionais podem ocorrer desvios da fonação que depois não se normalizam voluntariamente.

Em alguns casos os distúrbios acontecem por precocidade das alterações vocais.

Também se observam desajustes vocais quando há uma tentativa de resistir ao crescimento por ganhos psicológicos ou mesmo reais (especialmente em meninos cantores na intenção de manter a voz aguda, também chamado de falsete mutacional).

O transtorno pode ocorrer também pela necessidade do púbere em manter um tom muito agudo para disfarçar falhas tonais, entre outras.

As causas orgânicas podem acontecer em casos de laringe pequena ou voz natural de tenor, insuficiência testicular, atraso no desenvolvimento hormonal, assimetrias laríngeas, deficiência auditiva profunda, mutação vocal incompleta (agravamento vocal em torno de 4 a 5 tons e não de uma oitava), por alguma doença debilitante durante a puberdade como uma disfunção neurológica com hipotonia ou falta de coordenação das pregas vocais, da respiração, e em casos de diafragma laríngeo (patologia congênita das pregas). Nesses casos o acompanhamento médico é imprescindível.

Muda vocal e auto-imagem

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Não há dúvidas que uma das maiores conseqüências destes distúrbios vocais está ligada à imagem vocal negativa do indivíduo.

No caso dos homens podem trazer limitações em sua vida profissional passando a ideia de pouca autoridade para liderar um grupo ou tomar decisões importantes por possuir uma voz que soa frágil ou afeminada.

A relação social do indivíduo também pode sofrer danos, pois sua voz pode transferir ao ouvinte sentimentos de imaturidade, passividade, submissão, indefinição sexual, instabilidade, emotividade excessiva e fraqueza ainda mais se a voz não for compatível com a estrutura física do falante.

Aulas de Canto e Muda Vocal

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Vale discutir aqui o que é ainda bastante controverso na literatura e que de certa forma pode nos interessar ainda mais:

Como deve ser o uso profissional da voz falada (no teatro, por exemplo) ou cantada nesse período de transição da voz infantil para a voz adulta?

O quanto às aulas de canto podem influenciar positiva ou negativamente neste processo?

Em minha prática como professora de canto já tive algumas experiências em sala de aula com meninos e meninas em período de muda vocal, todos apresentando num primeiro momento grande instabilidade e falta de controle da emissão vocal.

A grande maioria desses alunos não atuava profissionalmente com a voz. Assim o objetivo da aula era dar ao aluno um pouco mais de controle vocal para diminuir tensões e abusos desnecessários.

Tive a oportunidade de trabalhar com um cantor profissional em período de muda vocal. Quando procurou por minhas aulas tinha apenas treze anos de idade, mas já atuava há anos no mercado sertanejo e acabava de ser liberado pela fonoaudióloga, depois de tratar pequenos nódulos adquiridos supostamente por falta de apoio e tensão laríngea ao cantar.

Minha função era, portanto, dar aquele aluno um direcionamento técnico para que o mesmo pudesse continuar com seus compromissos profissionais sem se machucar novamente.

Recordo-me que no início do nosso trabalho a tessitura vocal desse aluno ainda era bastante aguda e tínhamos sempre que começar os exercícios pelo menos três tons acima do habitual para que o mesmo conseguisse alcançar as notas.

Como o aluno ainda não havia estabelecido um apoio abdominal focamos neste aprendizado (afinal ele colocava toda a força na garganta ao cantar).

Também o orientei a sempre fazer um aquecimento vocal antes do uso profissional da voz e assim juntos fomos fazendo a manutenção daquele quadro de instabilidade até a sua normalização.

O interessante foi observar o quanto se agravou sua voz com o passar dos anos, dando a ele uma excelente extensão vocal e uma linda voz de barítono.

Conseguimos constatar juntos a importância de se ter um acompanhamento técnico nesse período, pois o processo de muda se deu de forma mais tranqüilo e natural, houve considerável diminuição do abuso no uso da voz profissional e falada.

O trabalho técnico proporcionou uma maior consciência dos recursos vocais disponíveis e o mais importante não foi necessário interromper a atividade com o canto.

Ainda que seja uma discussão controversa entre os pesquisadores da voz, prezo o acompanhamento profissional desses meninos em processo de muda vocal, que têm uma atividade intensa com a voz.

Acredito que o trabalho conjunto entre professor de canto, fonoaudiólogo e otorrinolaringologista pode ser ainda mais efetivo contribuindo para que esse processo seja o mais natural possível.

Curiosidades:

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  • O “pomo de Adão” se desenvolve com um aumento correspondente em comprimento das pregas vocais.
  • O crescimento da laringe que altera o agudo infantil para uma voz de tenor, ao que tudo indica demanda menos tempo e é menos exigente do que o ajuste laríngeo para uma voz de baixo. Assim quanto maior for o agravamento da voz infantil, maiores as dificuldades na adaptação muscular.
  • Nas meninas o comprimento médio das pregas vocais é de 15 mm antes da puberdade e pode aumentar para 17 mm numa voz de contralto.
  • Durante o período mutacional as pregas vocais de um garoto podem aumentar para um máximo de 23 mm numa voz de baixo.
  • O comprimento mínimo das pregas vocais para os do sexo masculino é de 17 mm e, portanto, pode-se ver que um tenor e um contralto podem ter a mesma faixa de tom, mas são os ressonadores maiores da laringe, faringe e particularmente do tórax que distinguem a voz masculina da feminina.
  • Aos nove anos, antes da puberdade, a laringe de meninos e meninas é anatomicamente, quase, do mesmo tamanho e eles produzem, geralmente, a mesma altura de voz (265 Hz).

Referências Bibliográficas:

BEHLAU, M. , M. & PONTES, P. Avaliação e tratamento das disfonias. São Paulo, Lovise, 1995. BOONE, D.R. Sua voz está traindo você? Como encontrar e usar sua voz natural. Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

PINHO, S.M.R. Fundamentos em fonoaudiologia, tratando os distúrbios da voz. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1998.

PINHO, S.M.R. – As disfonias psicogênicas da muda vocal Im FERREIRA, L.P. Um pouco de nós sobre voz . São Paulo, Pró- Fono, 1993.

 

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