Músculos intrínsecos da laringe: Processo fonatório

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Nos anos 90, quando atuava como cantora da noite, eu tinha a fama de ser uma cantora de “voz de peito” (registro pesado).

Apesar de não entender bem na época o que isso realmente significava orgulhava-me disto. Afinal ouvia dizerem a mesma coisa da minha grande musa: Elis Regina.

Quando iniciei meus estudos em fisiologia da voz, conheci o músculo “Tireoaritenóideo” ou “TA”, que tem dois feixes: TA externo e TA interno com a função de fechar e encurtar as pregas vocais no momento da emissão, respectivamente.

E o mais importante aprendi que ele é o principal protagonista na produção de sons graves, dando a voz uma característica mais densa.

Também entendi que se não trabalhasse meus agudos estes seriam sempre difíceis e “apertados”. Pois agora era outro o músculo intrínseco da laringe que precisava ser acionado, o “Cricotireóideo”, “CT”. Sua principal função é o alongamento das pregas vocais para a emissão de sons agudos.

Assim quanto mais o CT contrai produzindo o alongamento da prega vocal durante o canto, mais a voz soa tênue ou leve, favorecendo a emissão de voz média aguda ou de voz de cabeça (registro leve).

Este é um músculo formado por fibra vermelha e por isso é bastante resistente. Portanto dizer que homens que usam falsete estragam a voz é uma grande bobagem!

No vídeo abaixo os “cordões” verdes representam os músculos TA sendo alongados a partir da contração dos músculos CT (em vermelho na figura, parte reta e obliqua) realizando um movimento de báscula da Cartilagem Tireóidea.

 

Quanto ao TA, o músculo “queridinho” da maioria dos cantores intuitivos, podemos dizer que suas qualidades são evidentes, pois é ele quem dá mais expressividade à voz e seu uso é um dos principais atributos do canto popular.

Mas nem tudo é perfeito!

O TA externo responsável pelo fechamento glótico na fonação (glote é o espaço compreendido entre as pregas vocais), é formado em sua maioria de fibras brancas, que dão ao músculo a agilidade necessária para a proteção das vias aéreas, principal função da laringe, mas faz dele um músculo extremamente fatigável.

Assim foi mais fácil compreender porque todo mundo que “canta com mais “TA”(voz de peito) sem treino muscular, está fadado a ter maior cansaço vocal em suas performances. Falar e cantar grave demais com a voz pesada, fora da tessitura de conforto, podem ser bastante daninhos!

Portanto quando ensino fisiologia da voz para os meus alunos, pretendo dar a eles um mínimo de entendimento sobre as funções, características e predominância destes e outros músculos envolvidos no processo fonador.

Como todo instrumentista precisa conhecer melhor seu instrumento para executá-lo, acredito que o condicionamento técnico tem o papel de dar ao cantor maior domínio sobre toda a sua musculatura vocal.

A meu ver a compreensão do funcionamento deste plástico e versátil aparelho pode ser um grande diferencial no aprendizado do canto.

Quais são os principais músculos intrínsecos da laringe?

Músculos adutores – fazem o fechamento glótico no momento da fonação e controlam as diferenças de intensidade da voz, são:

AA (aritenóideos chamados também na literatura de interaritenóideos, dois oblíquos e um transverso)

CAL (cricoaritenóideos laterais)

TA externo (tireoaritenóideo externo ou tireomuscular)

Músculos abdutores – atuam durante a inspiração abrindo as pregas vocais, são:

CAP (cricoaritenóideo  posterior, parte vertical e horizontal)

Músculos tensores – alongam e encurtam as pregas vocais, fazendo o controle das diferenças de frequência da voz, são:

CT (cricotireóideo, parte reta e oblíqua)

TA interno (tireoaritenóideo interno ou tireovocal)

Obs: com exceção do músculo AA transverso, todos os outros são músculos pares.

Referência Bibliográfica:

PINHO, Silvia M.R. Fundamentos em Fonoaudiologia- Tratando os Distúrbios da Voz. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 1998.

PINHO, Silvia M.R.; KORN, Gustavo P.; PONTES, Paulo. Músculos intrínsecos da laringe e dinâmica vocal. V.1  Segunda Edição (Série: Desvendando os segredos da voz). São Paulo: Revinter, 2014.

Veja também:

http://vozteoriaepratica.com.br/por-que-estudar-fisiologia-da-voz/

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