Quem Sou

Tempo de leitura: 5 minutos

por Rogério Viana

 

Nestes muitos anos de prática como cantora e professora de canto, já me peguei algumas vezes perguntando por que decidi cantar, ou mesmo o que minha voz revela sobre mim.

Também me questiono sobre se ter mais conhecimento me traz mais segurança ou maior autocrítica ou sobre o que as pessoas realmente buscam numa aula de canto, o que desejam alcançar ou o que pretendem expressar.

São tantas as questões que eu poderia encher a página indagando coisas…

Aproveito este espaço, pois, para responder algumas delas. Respostas estas que, de certa forma, não retratarão nada a mais do que a minha verdade. Aquela que aprendi nestes anos, nos palcos, como cantora, e na sala de aula, com meus alunos. Compartilho o meu olhar!

Ser cantora, ser artista…  será?!

Diferente de muitas histórias que ouvi, no começo, cantar para mim não foi uma opção. Venho de uma família de Irmãos Cantores. Inclusive, assim éramos apresentados no Sul de Minas, no início dos anos 80. Sou a filha caçula de uma família de seis irmãos e tinha em torno de 11 anos quando comecei a cantar.

Das poucas memórias que guardo, cantar naquela época pra mim, era algo tão peculiar como brincar de boneca para uma menina da minha idade.

Lembro-me bem de não ter o sonho de ser cantora ou famosa, mesmo tendo como referência uma das maiores cantoras mirins do início dos anos 80, Nikka Costa, que estourou com seu primeiro disco, vendendo dois milhões de cópias no mundo todo, cantando “On My Own”. Nas festas de cidades vizinhas a nossa, era dela que eu fazia covers nas apresentações dos Irmãos Cascardo.

Mais para a adolescência, minhas referências musicais mudaram muito. Ouvia Elis, Joyce, Fátima Guedes e, claro, os mineiros do Clube da Esquina! Naquela época, já fazíamos muitos bailes na região de Minas.

Mas, se eu tinha algum sonho nessa fase, era o de cursar Medicina (talvez pela proximidade da casa dos meus pais da faculdade). Recordo-me bem de fazer inúmeras visitas com minhas amigas ao campus e ainda pedir para ver os cadáveres no formol (engraçado, para não dizer tétrico!).

Se tinha o sonho de ser médica, era para me especializar em Psiquiatria. Lembro-me de um dos livros que mais me fascinou na época, “Sybil”, de Flora Schreiber, publicado em 1973, que narra à história verídica de um dos mais famosos casos psiquiátricos já registrado de personalidade múltipla e que, em 1976, virou filme com o mesmo título.

Apesar desse sonho, fui seguindo e cantando nos bailes da vida com meus irmãos, sem muitas pretensões artísticas, até o final dos anos 80, quando recebi o convite para ir morar com minha irmã em Balneário Camboriú, Santa Catarina, e decidi fazer o primeiro vestibular, em Itajaí, para Psicologia.

Por muito pouco não entrei na faculdade. Para ser exata, foi por muito pouco mesmo: por um candidato! Não me pergunte o porquê, mas o fato é que eu não persisti. Já não plantava mais nenhum sonho, exceto o de ter a experiência de estar perto do mar.

Sobre cantar?Ah! Resolvi esquecer que fizera isso profissionalmente por quase 10 anos. Guardei minha carteira da OMB, tirada ainda em Minas, numa gaveta qualquer e, aos 18 anos, resolvi viver minha adolescência.

Em relação à faculdade, como disse, já não tinha grandes pretensões e, por isso, voltei a prestar vestibular em meados dos anos 90 para o curso menos disputado da Universidade: Licenciatura em Estudos Sociais. Claro que entrei com mérito!

Em segundo lugar na pontuação geral! Foram anos que me trouxeram conhecimentos de Filosofia e Didática (minhas matérias preferidas), entre outros, além de um sentimento de liberdade por ser uma universitária normal, igual a qualquer uma das minhas colegas de curso.

Mas chega um momento que a vida sinaliza um caminho…

Logo que terminei a Licenciatura, fui morar sozinha e precisei me estabelecer profissionalmente. Consegui dois trabalhos: como professora numa Escola Municipal e como cantora de uma banda de baile muito famosa na cidade. Depois de dois anos e meio sem cantar, aquele foi o meu retorno aos palcos!

Por que Curitiba?

Conheci Curitiba vindo trabalhar como cantora. A cidade que adotei como minha, há mais de vinte anos, me recebeu muito bem! Aqui desde 1993, fiz muitos jingles, apresentações em bares e eventos.

Conheci o Conservatório de MPB e também me formei na Faculdade de Musicoterapia, talvez o mais próximo do meu sonho da psiquiatria.

Depois de 33 anos de tanto “canto” e (desen) “canto”, posso dizer sem titubear que cantar para mim sempre foi natural e o que eu sempre soube fazer de melhor (ou pensava saber), o que eu sempre fiz sem esforço, e, sobretudo, do que eu não conseguia fugir, por mais que tentasse.

O canto sempre esteve inerente a mim. Já me fez sentir forte, frágil, competente, incapaz, insubstituível, comum… Especialmente, me fez mais humana!

Vivendo o paradoxo da busca pelo perfeito, mas aprendendo na marra que a beleza está mesmo nas pequenas imperfeições!

Penso que para se cantar de verdade é preciso ter muito mais do que uma bela voz. É preciso ter vontade de dizer alguma coisa. Vontade de expressar alguma coisa que é só sua, do seu jeito, única!

Hoje eu sei porque minha dúvida sempre foi entre ser cantora ou psiquiatra, temos mesmo de tudo um pouco!

por Rogério Viana

Ana Cascardo é Cantora, Produtora, Professora de Canto Popular, licenciada em Estudos Sociais pela Univali (Universidade do Vale do Itajaí), graduada em Musicoterapia pela FAP (Faculdade de Artes do Paraná), formada em Coach Life pela SLAC (Sociedade Latino Americana de Coaching). Atua como professora de canto no Conservatório de MPB de Curitiba desde o ano 2000. Tem dois CDs lançados e o livro/DVD Guia Teórico Prático da Voz,  publicado em parceria com a fonoaudióloga Dóris Beraldo.  (4olxHQFHYiwpwtV)