Registros vocais: Voz de peito? Voz de cabeça?

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Seria cômico se não fosse triste pensar o quanto se compartilham informações equivocadas nos nossos dias com toda a facilidade que a internet oferece.

Toda vez que vejo alguém explicando a respeito de registros vocais e relacionando-os diretamente a regiões de ressonância, como a famosa frase: “Na voz de peito o som ressoa mais na cavidade torácica e na voz de cabeça o som ressoa na cabeça…”.

No primeiro caso fico imaginando que em seguida farão a venda de próteses mamárias para cantoras que consideram suas vozes “fininhas” demais, garantindo a melhora imediata das suas vozes de peito ou “de fala” no agudo…

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Uso o termo “voz de fala” para designar a região grave e médio/aguda da voz e que é uma das características do canto popular.

Todo cantor popular tem como desejo maior alcançar aquelas famosas notas agudas de fala sem precisar fazer mudança na qualidade da emissão, ou seja, sem mudar para a voz de cabeça nas meninas ou ir para o falsete nos meninos.

E em geral para compensar a chegada até a nota aguda sem um bom ajuste, a emite com grande intensidade e elevação da cabeça produzindo uma “voz de garganta”, “apertada” resultante do aumento no fechamento esfinctérico das pregas vocais.

Vejo muita confusão sobre a definição dos registros vocais e apesar de entender que os termos estão ultrapassados, penso que o mínimo que um professor de canto deve investir em sua carreira é em seu conhecimento de fisiologia da voz para conseguir dar maior base técnica aos seus alunos. duvida

Devemos ter muito cuidado aos conteúdos que pesquisamos na internet.

O melhor é buscar sempre várias referências a respeito do assunto que queremos aprender e não apenas assimilar sem nenhum critério a informação que nos chega.

Sempre fiz a seguinte piadinha em aula: “Se você tem a voz leve e aguda vai ter que nascer de novo para fazer os covers da Ana Carolina…” Afinal a anatomia vocal é fator determinante para caracterizar uma voz mais grave ou mais aguda.

Assim pregas vocais grandes e mais espessas produzirão vozes mais graves e que soam mais “pesadas”, da mesma forma que as pregas vocais pequenas e menos espessas produzirão sons agudos e leves.

Contudo se bem orientada essa aluna poderá trabalhar o seu dilema, primeiramente fazendo a mudança de tonalidade da música para uma região mais próxima da sua tessitura (região de conforto da voz).

Poderá escurecer seu timbre a partir de um ajuste de filtro sonoro com mais espaço fazendo com que a voz soe mais “densa” na região médio/aguda ou diminuir espaço para que o grave soe com mais brilho (ressonância da voz).

Também poderá melhorar o acionamento da voz de “fala” ou “de peito” fazendo ajustes de fonte sonora (registro vocal). E para se chegar a um bom resultado compreender a sua fisiologia pode encurtar o caminho a se percorrer.

“O CONHECIMENTO ALIADO À BOA PRÁTICA POTENCIALIZA O RESULTADO.”

Mas afinal: “O que são Registros Vocais”

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Contando um pouco da história da pesquisa no âmbito da voz, no século XIX o cantor e professor espanhol Manuel García, criador do primeiro laringoscópio, foi o precursor da definição dos registros vocais. Segundo ele este fenômeno tratava-se de “uma série de tons consecutivos e homogêneos que vão da região mais grave até a mais aguda de pitch (frequência), produzido pelo mesmo princípio mecânico…”.

Em 1972, o cientista da voz Harry Hollien em seu artigo “O Vocal Registers” definiu registro vocal como “uma série ou um intervalo de frequências consecutivas que podem ser produzidas com qualidade de voz quase idênticas”. Também definiu o fenômeno como “um evento totalmente laríngeo”, e que deve ser operacionalmente definido em termos perceptuais, acústicos, fisiológicos e aerodinâmicos.

Mais recentemente, o reconhecido fisiologista Minoru Hirano demonstrou a íntima ligação entre os diferentes registros e a contração de grupos musculares específicos.

Devemos reconhecer então que associar a produção dos registros vocais a uma região específica de ressonância não só é simplista demais, como também uma ideia bastante equivocada.

Tomando como base a representação esquemática adaptada por Hirano (1988), costumo dizer aos meus alunos de forma mais resumida que “os registros vocais dizem respeito à musculatura vocal intrínseca que estou acionando com maior ou menor predominância no momento da emissão”.

Tipos de registros vocais segundo Hirano(1988):

Registro Basal ou Vocal Fry: possui atividade predominante de TA (músculo tireoaritenóideo), principalmente seu feixe externo (fry relaxado), e em outras vezes quando produzido com TA juntamente com CAL (músculo cricoaritenóideo lateral) é chamado Creaky Voice (fry tenso).

Abaixo um excelente vídeo sobre o comportamento vocal humano e o aumento do uso do vocal fry na fala de mulheres jovens americanas. Vale a pena conferir!

O vocal fry corresponde a região mais grave da extensão vocal e tem a característica de um som crepitante. É bastante usado por alguns cantores como um recurso de expressão no início de frases, e por alguns fonoaudiólogos como recurso terapêutico. Pode ser facilmente percebido na voz em situações de fadiga vocal.

Neste vídeo Zélia Duncan cantando uma pérola de Tom Jobim: “Bonita” e produzindo um pequeno vocal fry aos 0:35′ da música.

Registro Modal: com grande atividade dos músculos tensores TA e CT (cricotireóideo) ao longo de toda extensão vocal, e é dividido em subregistros: de peito, médio e de cabeça.

Subregistro de Peito ou Voz de Peito: maior predominância da atividade do TA, músculo tensor responsável pelo fechamento e encurtamento das pregas vocais. A voz é mais “densa”, pregas vocais mais encurtadas com maior arredondamento de suas bordas livres, produção de onda mucosa ampla e amplitude de harmônicos em toda sua extensão vibrante.

Para mim uma das melhores referências de voz de peito feminina: Elis Regina.

Subregistro Médio: corresponde à região que o cantor apresenta maior dificuldade em transitar entre um subregistro e outro dosando com precisão a atividade do TA antes da troca muscular ou “zona de passagem”.

Rosa Passos com todo seu swing e sua leve voz de eterna menina…

Penso que este é um dos maiores desafios técnicos do cantor: emitir sons com qualidade em uma região médio/aguda usando ainda a “voz de fala” sem fazer a troca total de predominância muscular TA/CT e sem aumentar a força de emissão para dar os agudos próximos a zona de passagem…

Nessas horas o controle de intensidade da emissão e a estabilidade da posição da laringe no pescoço, podem ajudar na redução progressiva da atividade do TA e a mistura com a atividade do CT sem que haja uma quebra brusca de passagem. Muitas vezes estas quebras na voz são bastante desejadas e usadas esteticamente por alguns cantores.

“ACREDITO QUE NO CANTO POPULAR TUDO PODE SER EMPREGADO COMO UM RECURSO SONORO, DESDE QUE VOCÊ TENHA REALMENTE DOMÍNIO SOBRE O QUE ESTÁ FAZENDO.”

Subregistro de Cabeça ou Voz de Cabeça: maior predominância da atividade do CT, músculo tensor responsável pelo alongamento das pregas vocais na produção dos sons agudos. A voz é mais tênue, com a borda livre das pregas vocais pouco espessa, onda mucosa atenuada e amplitude de harmônicos diminuída.

Tetê Espíndola ainda hoje usando sua famosa voz de cabeça que marcou os anos 80.

Ainda temos o Registro de Falsete caracterizado por grande atividade do CT com TA quase totalmente relaxado e atividade de CAL e AA (músculos adutores) levemente reduzida, o que justifica o aparecimento de uma fenda triangular em toda a extensão das pregas vocais durante a sua emissão.

Excelente compilação de vozes masculinas em falsetes e vozes femininas em voz de cabeça com suas respectivas frenquências emitidas descritas:

Em outras palavras é comum na região aguda da voz masculina haver uma maior soprosidade em relação à “voz de fala” ou registro de peito, devido à diminuição da atividade dos músculos responsáveis pelo fechamento da parte posterior das pregas vocais, gerando nestas uma fenda paralela (configuração considerada fisiológica na produção do registro de falsete masculino).

A voz do contratenor é considerada a exceção deste padrão de fisiologia, não havendo neste caso a produção de fenda glótica e permitindo com isso que a voz seja produzida com maior potência e sem soprosidade.

O contratenor Edson Cordeiro numa interpretação um tanto inusitada…

O termo “falsete feminino” muitas vezes é usado erroneamente para definir o que na verdade corresponde ao subregistro de cabeça. No entanto pode haver a produção de falsete feminino em casos do uso inadequado de registro, gerando a mesma fenda glótica do falsete fisiológico masculino. (Glote é o espaço compreendido entre as duas pregas vocais).

As fendas glóticas podem ocorrer por problemas de configuração laríngea por desequilíbrio no mecanismo de sua musculatura ou pela presença de alterações orgânicas maiores, como as lesões nas pregas vocais.

A Fenda médio posterior muito comumente encontrada em vozes com muito esforço vocal e que pode ser responsável pelo desenvolvimento de nódulos vocais.

Registros de Flauta: predominância de CT com redução progressiva da zona vibrante, pelo maior alongamento das pregas vocais e aumento da pressão subglótica. Som leve realizado com a emissão vocal de notas em torno de Sol 5 e Lá 5.

Exemplo de Registro de flauta da cantora Minnie Riperton nos 1:56′ da música. Confira!

Registro de assobio ou Whitle: Neste caso o que ocorre é a ausência de vibração das pregas vocais, com um mecanismo peculiar em seu fechamento, e a produção de um orifício glótico que varia de tamanho conforme ocorre a modulação dos sons e modificação no fluxo de ar. Esses hiperagudos acontecem em torno de Dó 6.    

Vários exemplos de whistle da cantora Mariah Carey’s. Vídeo imperdível!

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