A Construção de uma voz: Ressonância Vocal

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Ressonância da voz: nosso filtro sonoro

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Ressonância vocal é um dos assuntos que mais me fascinam no estudo da fisiologia vocal, pois através dele podemos ampliar e sobretudo, modificar o som que produzimos.

Penso que descobrir várias possibilidades de uso desses espaços podem dar a voz mais plasticidade e ao cantor mais recursos para a interpretação de uma canção.

Sempre gostei muito de falar sobre este assunto em aula, sobretudo com o intuito de dar mais consciência ao aluno sobre como ele usa seu trato vocal no canto.

Acredito que ter esse entendimento pode influenciar diretamente na qualidade da sua voz, de seu timbre.

Muitas vezes o aluno não gosta da voz que ouve, mas não sabe dizer o que há de errado nela.

Acredito que é de extrema importância identificar e relacionar as características timbrísticas com a forma como se usa as estruturas responsáveis pela ressonância.

Isto dará ao cantor maior habilidade para explorar toda a riqueza sonora que esses ajustes podem proporcionar.

Como costumo dizer: “No canto popular tudo pode ser usado como efeito sonoro…”

O problema é quando alguns excessos interferem diretamente na compreensão de fonemas ou deixa a voz soando caricata demais no canto. Gosto de pensar na voz do cantor popular o mais próximo possível da sua voz de fala.

 O que é ressonância vocal

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Ressonância vocal trata-se portanto do fenômeno de ampliação e modificação do som que emitimos.

Todo o trato vocal funcionará como filtro do som que é produzido na laringe, nossa fonte sonora.

Um cantor que sabe usar bem esses espaços de ressonância tem mais domínio sobre o “corpo” e o “brilho” do som que produz, podendo utilizar esses recursos para melhorar a sua “projeção”.

A voz gerada na laringe é formada por uma “freqüência fundamental” (F0) determinada pela velocidade de vibração das pregas vocais e por diversas freqüências múltiplas desta freqüência, conhecidas como harmônicos.

O cantor pode realizar ajustes no seu trato vocal, como por exemplo,  fazer constrições em músculos específicos ou alterar a proporção entre a abertura da boca e o comprimento do tubo.

Estes ajustes possibilitam a valorização dos harmônicos graves (quando produz um espaço maior de ressonância) ou a valorização dos harmônicos agudos (quando diminui este espaço).

A forma como o cantor realiza esse conjunto de ações (parte funcional) mais a sua estrutura anatômica vocal ditará o seu timbre, ou seja, darão a qualidade e características distintas à sua voz.

Leia mais sobre os harmônicos da voz neste post:

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Você Sabe O Que é “Overtone Singing” ou “Canto Difônico”?

A PHD em voz Sílvia Pinho, ao tratar do assunto ressonância vocal, fala em níveis de projeção (M, N, NH) levando em consideração a posição da laringe e do véu palatino em cada emissão.

Ela fala também de constrições nos “cinturões de brilho” (região inferior, médio e superior), que seria o aumento do tônus em regiões setorizadas da faringe.

Segundo a fonoaudióloga esses ajustes faríngeos influenciam diretamente no brilho e conseqüentemente na projeção da voz.

Marconi Araújo, um dos maiores especialistas em Belting contemporâneo, fala de ressonância vocal considerando três espaços do trato vocal: regiões laringofaringe, orofaringe e rinofaringe.

O professor considera  a ressonância orofaríngea a mais utilizada no Belting, mas também não descarta o uso das demais.

No livro Belting Contemporâneo, Marconi ressalta a importância dos diversos elementos que trabalham no ajuste destas ressonâncias, sendo a língua, os lábios, o palato mole e a musculatura extrínseca (que abaixa ou eleva a laringe, criando maior ou menor espaço laringolfaríngeo).

Vale observar que não necessariamente um cantor utilizará apenas um foco ressonantal de cada vez, sendo possível utilizar mais de um desses ajustes simultaneamente.

A Dra. Sílvia Pinho,  cita também a possibilidade de realizar a ampliação do espaço na região posterior do trato vocal mesmo com o uso de ressonâncias nasais.

Isto se daria pela atividade da musculatura extrínseca abaixadora da laringe associada à atividade da musculatura de expansão faríngea, mesmo havendo produção de nasalidade, ou seja, sem elevação velar.

Didaticamente em minhas aulas gosto de falar sobre ressonância vocal identificando três regiões do trato vocal que darão a voz qualidades distintas (classificação usada pela Dra. Silvia Pinho no livro “Fundamentos em Fonoaudiologia”):

Foco Nasal (com ou sem constrição rinofaríngea);

Foco Faríngeo (constrição orofaríngea);

Foco Laringofaríngeo (maior espaço de ressonância por elevação de palato e abaixamento laríngeo).

Foco Nasal

Foco nasal ou ressonância nasal consiste no direcionamento do fluxo aéreo para as cavidades nasais. Pode resumidamente ser dividido em:

Hipernasalidade: gera nasalidade nos sons orais.

Muitas vezes ocorre apenas por uma questão funcional e em outras circunstâncias é por causa orgânica, comprometendo o fechamento velofaríngeo.

Rinolalia fechada: certamente neste caso há presença de alteração nasal por causa orgânica.

O fluxo aéreo vai para a cavidade nasal, mas é distorcido devido a presença de edema das estruturas internas do nariz, rinite alérgica ou gripe, pólipos nasais, desvio de septo, entre outros.

Hiponasalidade: diminuição da passagem do fluxo aéreo pela cavidade nasal, reduzindo a nasalidade dos fonemas nasais (m, n, nh, ã, õ).

Pode ter tanto por causa orgânica como funcional. Voz do “Bob Pai”.

Denasalidade: com ausência completa dos sons nasais por distúrbios orgânicos ou funcionais como no caso dos deficientes auditivos.

Vídeo bastante didático sobre nasalidade da fonoaudióloga pós-graduada em voz, Luciane Sagrette:

 Foco Faríngeo

Ocorre por constrição faríngea, por contração dos pilares faríngeos, abaixamento velar e elevação do dorso da língua.

A voz fica com uma característica brilhante e metalizada.  Neste caso a projeção da voz é aumentada.

 Foco laringofaríngeo

Neste caso há maior espaço no trato vocal em função do abaixamento da laringe e elevação do palato mole. A voz soa mais “escura”, mais “abafada”, com menor projeção.

Vamos ver na prática!

Nos vídeos abaixo dou exemplos de cantores que supostamente fazem uso dos focos ressonantais mencionados:

Foco nasal

Foco Faríngeo

Foco laringofaríngeo

Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, Marconi. Belting Contemporâneo: aspectos técnicos-vocais para teatro musical e música pop. Brasilia: Musimed edições musicais, 2013.

PINHO, Silvia M.R. Fundamentos em Fonoaudiologia- Tratando os Distúrbios da Voz. Rio de Janeiro. Guanabara Koogan, 1998.

PINHO, Silvia M.R.; KORN, Gustavo P.; PONTES, Paulo. Músculos intrínsecos da laringe e dinâmica vocal. V.1  Segunda Edição (Série: Desvendando os segredos da voz). São Paulo: Revinter, 2014.

 

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