Técnica Vocal x Voz Infantil

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voz-infantilAcredito que o trabalho técnico vocal com a voz infantil deve ser especializado e cuidadoso. Afinal estamos lidando com uma laringe ainda em processo de desenvolvimento e futuro amadurecimento.

Por considerar que a prática de vocalizes tem como função o condicionamento da musculatura intrínseca e extrínseca da laringe, penso que o mesmo deva ser realizado com algumas ressalvas para esta clientela.

Da mesma forma que não se recomenda para qualquer outra musculatura corporal da criança, a laringe infantil não deve ser exposta a uma excessiva “malhação muscular”, mas sim em aprendizados específicos que favoreçam o seu desenvolvimento natural sem comprometê-la.

Dessa forma a prática de exercícios vocais precisa ter um olhar mais lúdico, visando o despertar da consciência corporal da criança, sua desenvoltura, expressividade, e os treinamentos técnicos precisam ser cuidadosamente pensados para auxiliar nesse processo.

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SUGESTÕES DE EXERCÍCIOS

Num primeiro momento sugiro o trabalho com exercícios respiratórios com o intuito de se estabelecer um modo respiratório mais adequado ao canto que conseqüentemente facilita o uso  do apoio abdominal, que é primordial para todo cantor independente da sua idade.

A respiração torácica compromete a boa qualidade da voz gerando tensões na região da laringe e esforço vocal desnecessário.

Além disso, trabalhar exercícios de alongamento, relaxamento e cuidar da postura corporal podem auxiliar nesse processo de aprendizado e estabelecimento da respiração mais baixa.

O trabalho da musculatura extrínseca com os “espaguetes”para o abaixamento da laringe pode ajudar nos ajustes com os agudos, melhorando as tensões criadas quando a tessitura da música é mais aguda.

O mais importante é fazer com que o aluno compreenda que o aumento da força para se conseguir emitir notas mais agudas, favorece a indesejada elevação laríngea e a famosa “voz de garganta” com pouca qualidade e possível quebra vocal.

Portanto desde muito cedo é preciso entender que “cantar bem” não é “cantar forte” e sim cantar com expressividade!

Eu me lembro bem que na infância me diziam que eu tinha um “vozeirão para a minha idade”. E hoje não vejo isso como uma vantagem, pois entendo que muitas vezes esse “vozeirão” faz com que a criança perca sua essência, saia da sua tessitura de conforto e cante como um adulto…

Voz de criança deve soar como voz de criança e ponto! É nesta característica que se encontra a sua beleza, é o que nos chama mais a atenção!

Há indicação na literatura de que o trabalho com vozes infantis precisa ser feito por uma voz feminina adulta ou uma voz masculina em falsete, por ser mais fácil para a criança o aprendizado através da imitação.
DISFONIA INFANTIL

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Outra questão que gostaria de levantar aqui de forma mais superficial, é o índice relativamente grande de ocorrência de nódulos vocais em crianças em fase escolar por motivos funcionais, ou seja, abuso vocal em situações de competição sonora, fala excessiva e/ou em forte intensidade, gritos, infecções das vias aéreas superiores, condições alérgicas crônicas como rinite, entre outros.

BEHLAU, 2000. Afirma que além destes fatores a configuração laríngea das crianças, assim como das mulheres, apresenta características fisiológicas que favorecem os nódulos vocais.

Segundo a autora a ocorrência da disfonia infantil está aumentando, e pode, ou não, vir acompanhada de alterações orgânicas secundárias, que são mais comumente os nódulos vocais.

Portanto é sempre bom dar a nossas crianças noções de saúde e comportamento vocal adequado. E ao se perceber qualquer alteração na qualidade da voz buscar a avaliação de um médico otorrinolaringologista e se necessário o trabalho de uma fonoaudióloga especialista em voz, antes mesmo do início de aulas de canto.

MUDA VOCAL

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Chegando a puberdade, no período da pré adolescência, há também um aumento de casos de disfonia vocal. É a chamada “muda vocal” que acontece tanto em meninos quanto em meninas.

Trata-se do período de alterações hormonais e maior desenvolvimento de todo o corpo.

Os meninos apresentam mudanças vocais mais drásticas, ficando com vozes mais instáveis e quebras vocais constantes. Também podem ser observados quadros de soprosidade na voz em ambos os sexos, devido ao fechamento incompleto das pregas vocais.

Fisiologicamente a laringe dos meninos aumenta em largura e comprimento e das meninas apenas em comprimento.

As vozes dos meninos podem agravar em torno de uma oitava e meia, enquanto nas meninas a mudança é de um intervalo de terça. Após esse processo tanto as meninas como os meninos desenvolvem mais corpo na voz pelo aumento das pregas vocais.

As meninas ganham em registro agudo e os meninos perdem em torno de uma sexta neste registro.

Não é recomendável durante o período de muda vocal exercitar a musculatura aos extremos tanto nos graves quanto nos agudos. Mas sim trabalhar com exercícios e repertório sempre em região vocal confortável, até o estabelecimento da voz adulta.

Mais do que nunca o trabalho técnico deve ser focado em exercícios de postura e alongamento corporal, exercícios respiratórios e de apoio, vocalizes com pequena duração e pouca intensidade, em região de conforto vocal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEHLAU, M. Intervenção fonoaudiológica no distúrbio de voz na
infância. 8.º Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia. Mesa-redonda.
Anais… Recife, 2000.

GINDRI, Gigiane; CIELO, Carla Aparecida e FINGER, Leila. Disfonia por nódulos vocais na infância. Salusvita, Bauru, v. 27, n. 1, p. 91-110, 2008.

Nygren M, Tyboni M, Lindstrom F, McAllister M, Doorn JV. Gender Differences in Children’s Voice Use in a Day Care Environment. J Voice. 2012; 26:815-18.

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